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ARTIGO ORIGINAL

Tratamento anticalcificante de bioprótese: resultado clínico inicial

Mário O VandrecicI; Bayard Gontijo FilhoI; Sérgio Almeida de OliveiraII; João Alfredo de Paula e SilvaI; Fernando Antônio FantiniI; Juscelino Teixeira BarbosaI; Sandra de Oliveira Sarpori AvelarIII; Andrzej PawlowskiIII; Cláudio Augusto de Oliveira AndradeIII; Heberth César MiottoIII; Maria Aparecida BragaIII; Cristiana GutierrezI

DOI: 10.1590/S0102-76381992000200006

Texto completo disponível apenas em PDF.



AGRADECIMENTO

Agradecemos ao Dr. Dilermando Fazito Rezende, pela colaboração na análise estatística do trabalho, e ao Departamento de Pesquisas e Publicação do Instituto Biocór.


Discussão

DR. HENRIQUE B. FURTADO
Bauru, SP

Cumprimentos pelo brilhante evento e cumprimentos ao Dr. Mário Osvaldo pela sua contribuição neste tópico tão importante, pela sua gentileza em ter nos enviado o trabalho completo e pela brilhante exposição que ele realiza hoje, neste Congresso. Eu gostaria de citar que, infelizmente, provavelmente por problema de sigilo industrial, o trabalho não cita o grupo químico da droga anticalcificante utilizada. Vários agentes anticalcificantes têm sido utilizados e foram feitos estudos experimentais desde a década de 80 que demonstram que os implantes subcutâneos em carneiros ou bezerros são metodologia científica adequada para se estudar a calcificação de tecidos biológicos. O Dr. Alain Carpentier apresentou trabalho, em 1984, onde compara amostras de cúspides porcinas tratadas por diversos agentes anticalcificantes. Mostrou que, dependendo do método utilizado para avaliar a calcificação, o resultado que se obtém da amostra é diferente. Por exemplo, uma amostra que não tinha grande calcificação em análises mais simples, quando analisada microscopicamente com absorção atômica demonstrou resultados diversos. Chamo a atenção, também, para que o resultado de tratamento anticalcificante varia dependendo do tecido biológico utilizado. Por exemplo, utilizando a poliacrilamida, o pericárdio bovino apresenta melhores resultados em relação ao tecido porcino. Reforçaria, mais uma vez, o brilhantismo do trabalho, porém gostaria de lembrar que, para acompanhamento clínico de pacientes jovens com biopróteses, o tempo de 6 meses é ainda muito pequeno. Gostaria de lembrar, também, que os tratamentos anticalcificantes até hoje não mostraram resultados clínicos comparáveis com os resultados experimentais e que as biopróteses na circulação humana são lavadas, não havendo correspondência dos estudos experimentais com os estudos clínicos. Espero que, nos próximos anos, sejamos brindados pelo Dr. Mário Osvaldo com uma maior experiência, com resultados muito melhores.

DR. FERNANDO A. LUCHESE
Porto Alegre, RS

Desejo somente fazer uma pergunta ao Dr. Mário Osvaldo e cumprimentá-lo pelo brilhante trabalho. A maioria desses trabalhos que utilizam agentes anticalcificantes mantém o glutaraldeído como forma de preservação da válvula. Portanto, não seria o momento de pensarmos em outro agente de preservação e se o glutaraldeído não está diretamente envolvido na calcificação? Será que não deveríamos mudar completamente a técnica?

DR. CAMILO ABDULMASSIH NETO
São Paulo, SP

É necessário salientar que são várias as causas que provocam a mineralização. Um ponto importante é que, hoje, sabemos que o glutaraldeído, e os radicais aldeídos em geral, são um dos causadores da calcificação. Portanto, gostaria de perguntar ao Dr. Mário se, no trabalho dele, nas biopróteses recuperadas, ele estudou o endotélio das válvulas, porque, hoje, o que mais se procura é manter o endotélio do hospedeiro sobre a válvula implantada. Existem vários trabalhos mostrando que o endotélio é muito importante para a preservação da estrutura valvar. Obrigado.

DR. VRANDECIC
(Encerrando)

Agradeço a todos os colegas que, ao longo dos anos, vêm prestigiando o nosso trabalho. Ao Dr. Henrique Barsanulfo Furtado, pela revisão da literatura, e reconhecimento da qualidade do material do texto deste trabalho. A diferença fundamental dos resultados experimentais apresentados é o tempo de experimentação. Neste estudo, o tempo de seguimento dos implantes em posição mitral foi de 6 meses, ao contrário de outros trabalhos, que têm a duração de 3 meses. Ficou evidente que este tratamento anticalcificante atua de modo a impedir a deposição progressiva de cálcio nos tecidos da bioprótese, tendo, inicialmente, uma concentração de 2,3 mg por miligramo de tecido seco, a qual continua com essa taxa independentemente do tempo, tanto em implantes no subcutâneo de ratos ou implantes das biopróteses tratadas em bezerros. Ao contrário, em outros estudos, a deposição do cálcio é tempo dependente. Estudos recentes, que constam no texto e bibliografia, indicam pelo menos um estudo apresentado, demonstrando a qualidade do tecido porcino valvar que permitem tratamentos químicos anticalcificantes com sucesso, demonstrados em implantes valvares recentemente apresentados por Girardot. Embora o tratamento apresentado por nós possua metodologia multiseqüencial, usando em cada estágio ácidos diversos, ficou provado que a valva aórtica porcina tolera bem este tipo de tratamento. Historicamente, tem proporcionado melhor durabilidade, até o presente momento. O Dr. Fernando Antonio Lucchese refere-se ao tratamento dos tecidos sem o uso do glutaraldeído; posso afirmar, que é um campo extremamente fértil e que está, também, estudado por nós, com resultados excelentes. É fascinante a pergunta do Dr. Camilo Abdulmassih Neto, a endotelialização dos enxertos em geral e, principalmente, das biopróteses. No Biocór Centro de Pesquisa, temos conseguido a endotelialização total das mesmas, todavia, o grau de aderência do endotélio não é suficiente para suportar o fluxo sangüíneo. Meus agradecimentos a todos, principalmente à Comissão Organizadora, pelo privilégio de discutir, neste Congresso, este trabalho importante que é o produto da contribuição de tantos colegas, que, como eu, acreditam na necessidade e importância de prolongar a vida útil das biopróteses.

REFERÊNCIAS

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