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ARTIGO ORIGINAL

Autotransfusão intra-operatória em cirurgia cardíaca: estudo comparativo de 140 casos

Sérgio Domingos VieiraI; Marielza dos SantosI; Thucydides RosalesI; Luiz Carlos Bento de SouzaI; Jarbas J DinkhuysenI; Paulo ChaccurI; Camilo Abdulmassih NetoI; Ricardo PavanelloI; Adib D JateneI

DOI: 10.1590/S0102-76381992000400009

Texto completo disponível apenas em PDF.


Discussão

DR. OTONI MOREIRA GOMES
Belo Horizonte, MG

Em nome do Serviço do Coração do Hospital São Francisco de Assis de Belo Horizonte, agradecemos à Comissão Organizadora do Congresso o privilégio desta participação, enaltecemos a grande importância prática da experiência relatada e parabenizamos a Equipe de Cirurgia Cardíaca do Hospital do Coração de São Paulo, pela excelência dos resultados obtidos no tratamento de patologias de alto risco, como se depreende da casuística estudada. Nossa interpretação do presente trabalho oferece oportunidade para uma discussão muito prdutiva. Entendemos que não existe homogeneidade que permita comparação fidedigna entre os dois grupos, o que é quase impossível no âmbito clínico, porque o fato de dois pacientes de mesmo sexo e idade serem reoperados não os torna semelhantes quanto à possibilidade de sangramento. A hemorragia nas reoperações depende da localização, intensidade e extensão das aderências teciduais e da habilidade e tática de cada cirugião em desfazêlas. A análise numérica da casuística favorece a conclusão de que no grupo controle foram mais freqüentes as cirurgias potencialmente mais hemorrágicas. Também existe uma descrição de casos operados sem circulação extracorpórea e que, não sendo definidos quanto ao grupo alocado, parecem estar no Grupo A, ou seja, de autotransfusáo. A Tabela 3 mostra que no grupo de autotransfusão o volume aspirado no campo variou de 50 a 4.473 ml, com média de 513 ml. Não existe referência à intensidade de sangramento do grupo controle e, ademais, um desvio padrão com valores diferenciando da média em até 8 vezes (800%) é impróprio para qualquer consideração estatística. Outro fator que distancia da homogeneidade os dois grupos considerados é o período de estudo: todos os pacientes do Grupo A (autotransfusáo) foram operados entre abril e outubro de 1991, ou seja, num interlúdio de sete meses, compatível com a atuação praticamente de uma mesma equipe. Já os pacientes do grupo controle (B) foram operados entre novembro de 1988 e dezembro de 1991, ou seja, num espaço de três anos, e todos sabemos o que acontece com a estabilidade da cirurgia a cada nova safra de residentes no campo operatório. Se fosse possível uma conclusão científica, ela seria exatamente o oposto daquela descrita. Os números provam que a recuperação celular cell-saver prejudicou significantemente a hemostasia dos pacientes, tendo evoluído muito melhor o grupo controle, no qual foi, inclusive, menor a mortalidade. Uma revisão atenciosa da Tabela 4 confirma nosso entendimento, pois observamos que os pacientes com autotransfusáo de sangue lavado necessitam cinco vezes mais de transfusão de plaquetes e criofatores do que o grupo controle. Sabemos, ainda, que o risco de contaminação, sensibilização e embolia na transfusão de concentrados de plaquetas não é menor do que na do sangue homólogo. Dr. Vieira, não podemos deixar de lamentar o fato de que, em toda sua bibliografia, não conste nenhum dos excelentes trabalhos brasileiros sobre autotransfusão em cirurgia cardíaca, alguns com recursos originais e importante contribuição tecnológica. Finalizando, gostaríamos de ressaltar o fato de que, apesar de todo empenho para evitar a transfusão de sangue, ela foi necessária em 95% dos casos, o que contra-indica formalmente cirurgia de reoperação cardíaca em pacientes Testemunhas de Jeová. O senhor já vivencicou alguma vez este problema? Muito obrigado.

DR. VIEIRA
(Encerrando)

Os estudos comparativos, utilizados em trabalhos científicos, consistem numa técnica utilizada mundialmente há várias décadas, justificando, portanto, a realização do trabalho, visto que os grupos em questão são extremamente semelhantes entre si. A introdução dessa técnica no Hospital do Coração, a partir de abril de 1991, se orientou na experiência de outros Serviços, e de vasta literatura científica, pois, na América, esse mesmo procedimento já é realizado há 19 anos, com excelentes benefícios aos pacientes. Por isso, desde então, todos os pacientes graves, ou seja, aqueles que poderiam se beneficiar desse procedimento, foram incluídos nesse programa, não havendo, portanto, preocupação quanto à mesma periodicidade de estudo entre os grupos e muito menos à "nova safra de residentes" no campo operatório, pois é inadmissível pensar que, a cada nova safra de residentes, haja um prejuízo ao Serviço e, principalmente, aos pacientes. Conforme podemos observar na Tabela 6, a maioria dos pacientes que utilizaram a cell-saver (51,4%) necessitaram no máximo de 2 unidades de sangue e/ou derivados homólogos (sendo incluídos aqui, plaquetas, crioprecipitado etc), enquanto que a maioria dos pacientes do Grupo controle (78,6%) utilizou entre 3 a 5 unidades, comprovando que essa técnica é um procedimento seguro e eficaz na redução do uso de sangue homólogo, e recomendada pelos pacientes Testemunhas de Jeová.

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