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ARTIGO ORIGINAL

Transplante cardíaco ortotópico: experiência na Universidade Federal de São Paulo

João Nelson Rodrigues Branco0; Carlos Alberto Teles0; Luciano de Figueiredo AGUIAR0; G. F. VARGAS0; M. A. HOSSNE Jr.0; José Carlos S. de Andrade0; A. C. C. CARVALHO0; Ênio Buffolo0

DOI: 10.1590/S0102-76381998000400002

INTRODUÇÃO

Neste século, o transplante de órgãos colocou-se como um dos avanços mais audaciosos e revolucionários da medicina.

Em cardiologia, particularmente, o paciente destinado a transplante é portador da chamada "cardiopatia em estágio terminal", para a qual o tratamento clínico, procedimentos intervencionistas ou, mesmo, cirurgia cardíaca convencional não são suficientes para melhoria ou prolongamento da vida do paciente.

O transplante cardíaco é hoje aceito como método efetivo para o tratamento dos pacientes sem esperança, prazer ou satisfação de uma existência saudável e digna, ou, mesmo, com risco de vida.

A história nos mostra a difícil evolução do método, onde, a partir dos estudos em laboratório, CARREL & GUTHRIE (1), em 1905, anastomosaram, nos vasos do pescoço de cães, corações doados de outro animal. Cinco décadas depois, GOLDBERG et al. (2), em 1958, realizaram também, em cães, a substituição de um coração por outro num transplante ortotópico. No entanto, foram LOWER & SHUMWAY (3), em 1960, que padronizaram a técnica operatória do transplante ortotópico, que permanece até hoje com poucas modificações.

O primeiro transplante cardíaco entre seres humanos foi realizado em dezembro de 1967, na África do Sul, por BARNARD (4), que havia participado da equipe do Dr. Lower, no Medical College of Virginia. Houve grande entusiasmo na época; devido às complicações como rejeição e infecção, a maioria das equipes interrompeu temporariamente seus programas de transplante.

Nos anos 80, com a introdução de uma nova droga, a ciclosporina, houve uma retomada dos programas de transplante, com o crescimento de procedimentos e número de centros envolvidos. Tal fato pode ser facilmente constatado no registro da International Society of Heart and Lung Transplantation, documentando, até 1966, 40.738 transplantes isolados de coração, em cerca de 297 centros, havendo, nos anos de 1994, 1995 e 1996, respectivamente, 3.986, 3.865 e 3.048 (HOSENPUD et al. (5), 1997).

No Brasil, após os 3 primeiros casos realizados pela equipe chefiada pelos Drs. ZERBINI & DÉCOURT (6), entre 1968 e 1969, houve um lapso de 17 anos e, a partir de 1984, teve início o programa de transplantes em vários centros, porém não se realiza, ainda, mais de uma centena de transplantes por ano.

Na Escola Paulista de Medicina, a partir de 1984, formou-se uma equipe de trabalho multidisciplinar para a elaboração de protocolos e rotinas clínicas, criando-se uma infra-estrutura para um programa de transplante. No dia 26 de novembro de 1986 foi iniciada a nossa casuística clínica e a meta foi analisar, nesses poucos mais de dez anos, aspectos gerais da nossa experiência, para compartilhar com colegas de Serviços semelhantes, as diversas dificuldades e problemas que um programa como esse apresenta em nosso país.

Os nossos objetivos, entre outros, foram:

Avaliar se o emprego da técnica clássica (LOWER & SHUMWAY) (3) mostrou-se eficiente, sem grandes complicações que sugerissem modificações.

Analisar se a captação de órgãos à distância, em nossa comunidade, determinou tempo de anóxia prolongada dos corações.

Conferir a taxa de infecção em transplantes em nossa comunidade, e se seria factível transplante em pacientes com miocardiopatia chagásica.

Avaliar se foi possível realizar transplante cardíaco em nossa comunidade, com boa sobrevivência e taxa aceitável de complicações pós-operatórias.

CASUÍSTICA E MÉTODOS

No período compreendido entre novembro de 1986 e maio de 1997, foram realizados pela equipe de cirurgia da Universidade Federal de São Paulo 92 transplantes ortotópicos em 92 pacientes. Oitenta e três pacientes foram operados no Hospital São Paulo, 7 pacientes operados no Hospital Israelita Albert Einstein e 2 pacientes operados no Hospital do Coração da Associação do Sanatório Síric.

Pacientes Receptores

Todos os pacientes receptores de transplante apresentavam-se em classe funcional III ou IV da NYHA, apesar de um tratamento convencional intenso. Foram realizadas, nesses pacientes, cateterização cardíaca direita e esquerda e avaliação cardíaca não invasiva, para documentar disfunção importante (fração de ejeção menor que 25%), bem como afastar resistência vascular pulmonar alta (maior que 4 unidades Wood). Foram afastados candidatos com diabete dependente de insulina, doenças graves do fígado, rins e pulmões, infecção ativa, úlcera péptica ativa e neoplasias. Todos os pacientes apresentavam condições psicossociais e econômicas estáveis.

A faixa etária variou de 3 a 63 anos, com média de 44,9 anos, sendo 72 (78,26%) pacientes do sexo masculino e 20 (21,74%) do sexo feminino.

As doenças que levaram à indicação de transplantes estão relacionadas na Figura 1.


Fig. 1 - Indicações de transplante cardíaco em 92 pacientes nov/1986 a abril/1997.

O tempo de acompanhamento após alta hospitalar variou de 24 dias da 10 anos e 6 meses, com mediana de 32,4 meses e média de 37,4 ± 26,9 meses.

Pacientes Doadores

Em todos os casos a morte encefálica foi diagnosticada por neurologistas ou neurocirurgiões que não pertenciam à equipe de transplantes, havendo também documentação com algum exame subsidiário: carotidoangiografia, eletroencefalograma, exame de potencial evocado ou mapeamento cerebral com radioisótopos.

Como critérios de seleção os doadores deveriam apresentar idade biológica menor que 55 anos, apresentar função cardíaca normal (ecocardiograma), não ter história de doença cardíaca ou parada cardíaca prolongada, não necessitar suporte de dopamina maior que 10 mcg/kg/min ou outro vasopressor. Obedeceu-se, ainda, a compatibilidade dos grupos sangüíneos ABO com o receptor e o peso ou superfície corporal compatível (diferença não menor que 20% do receptor). Os doadores não apresentavam infecção e foram realizadas sorologias para afastar doenças, tais como: Chagas, hepatite B e C, lues, malária e síndrome de imunodeficiência adquirida (AIDS).

A faixa etária desses pacientes variou de 7 a 54 anos, com média de 25,4 ± 9,7 anos, sendo 62 (67,39%) do sexo masculino e 30 (32,61%) do sexo feminino.

As causas que levaram à morte dos doadores estão relacionadas na Figura 2.


Fig. 2 - Causas de morte encefálica em 92 pacientes doadores de órgãos.

A técnica operatória empregada nos 92 casos foi a clássica de transplante ortotópico descrita e padronizada por LOWER & SHUMWAY (3), em 1960, com poucas modificações.

Na circulação extracorpórea empregada para o receptor foi usado oxigenador de membranas, com hemodiluição e hipotermia moderada.

A proteção miocárdica do doador nos primeiros 15 casos foi com cardioplegia cristalóide, sendo nos últimos 77 casos utilizada cardioplegia sangüínea, sempre complementadas com esfriamento tópico com soro gelado.

Em 77 casos, o doador e o receptor foram operados lado a lado (salas contíguas) e, em 15 oportunidades, o coração foi retirado em outro hospital.

Imunossupressão

O protocolo de imunossupressão usado rotineiramente foi baseado no clássico "esquema tríplice" (corticóides, azatioprina e ciclosporina), com adaptações individuais, sendo a ciclosporina introduzida apenas no quarto dia de pós-operatório.

Particularmente nos pacientes chagásicos, a partir do terceiro mês a prednizona foi interrompida. Nos episódios de rejeição moderada/grave foram feitas pulsoterapias intravenosas de metilprednizona.

O diagnóstico e monitorização da rejeição celular aguda foram realizados através da biópsia endomiocárdica, semanal no primeiro mês, quinzenal no segundo mês e mensal do terceiro ao sexto mês.

RESULTADOS

O ato operatório em si não apresentou intercorrências dignas de nota em todos os casos relatados, não havendo complicações diretamente relacionadas à técnica operatória.

Os tempos de circulação extracorpórea para transplantes lado a lado e a distância foram, em média, respectivamente, 126,3 ± 24,82 minutos e 147,6 ± 44,5 minutos. O tempo de pinçamento da aorta para esses dois grupos foi, em média, também respectivamente, de 89,5 ± 18,7 minutos e 121,1 ± 21,4 minutos. Esses tempos foram considerados diferentes entre si e estatisticamente significante (Teste "t" de Student e Mann-Whitney com p < 0,0001).

As principais complicações decorrentes principalmente do uso crônico dos imunossupressores estão relacionadas no Gráfico 1.

GRÁFICO 1
PRINCIPAIS COMPLICAÇÕES RELACIONADAS AO USO DE IMUNOSSUPRESSORES EM 654 PACIENTES COM ACOMPANHAMENTO SUPERIOR A SEIS MESES PÓS TRANSPLANTE CARDÍACO



Não houve casos de neoplasia linfoproliferativa, havendo, no entanto, 6 casos de neoplasia de pele (carcinoma espinocelular e basocelular) e, ainda, 2 casos de adenocarcinoma de próstata.

Com relação às infecções, houve predomínio das virais sobre as bacterianas, seguidas pelas infecções por protozoários (Figura 3).


Fig. 3 - Incidência de infecção em 92 pacientes submetidos a transplante cardíaco - nov/1996 a abril/1997 (seguimento de uma semana a 9,5 anos).

As infecções virais foram principalmente por herpes simples (labial e genital) seguida por Herpes Zoster, citomegalovírus (com um óbito) e condiloma acuminado, como mostra a Figura 4.


Fig. 4 - Incidência de infecção viral em 92 pacientes submetidos a transplante cardíaco. nov/1986 a abril/1997.

Nas infecções bacterianas houve variações da flora, do tipo Gran positivo e Gran negativo, não sendo possível, muitas vezes, o isolamento específico do agente infeccioso.

Dentre as bactérias isoladas, houve muitas variações: Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Enterobacter sp, Klebsiella Pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Escherichia coli, Pneumococcus sp, Streptococcus pneumoniae etc.

Houve no total 7 infecções do sítio cirúrgico (I.S.C.), sendo 6 do tipo superficial e apenas 1 mediastinite. Esta necessitou de intervenção (reabertura, desbridamento, irrigação contínua com povidine e drenagem). Na cultura da secreção da mediastinite foi isolado o S. aureus e no material das demais incisões cirúrgicas foram isoladas, predominantemente, bactérias Gran negativas (K. pneumoniae e outras). Não houve óbito por esta causa.

Hoube 1 caso de abscesso cerebral por Listeria monocytogenes no 3º mês de pós-operatório de uma paciente, que foi tratado, com sucesso, com drenagem e ampicilina, sem deixar seqüelas.

Na categoria de protozoários, houve 4 casos de infecção pulmonar oportunista por Pneumocistis carini, sem óbitos, e houve 4 casos de toxoplasmose, com um óbito (diagnóstico de necrópsia). Nos 21 pacientes com diagnóstico pré-operatório de moléstia de Chagas houve reativação do Trypanosoma cruzi no pós-operatório em 7 (33,3%) casos (Figura 5).


Fig. 5 - Incidência de infecção por protozoários em 92 pacientes submetidos a transplante cardíaco. nov/1996 a abril/1997.

Quanto à incidência de coronariopatia no pós-operatório tardio, os resultados foram imprecisos devido à não realização sistemática da cinecoronariografia; no entanto ficaram evidentes lesões coronarianas em paciente falecida por rejeição com 9 anos e 2 meses pós-transplante (caso nº 2).

Houve morte de 16 (17,3%) pacientes com menos de 30 dias de pós-operatório (mortalidade hospitalar); 10 (10,3%) pacientes faleceram no período de 31 dias a 1 ano de acompanhamento; e 13 (14,1%) óbitos em pacientes com mais de 1 ano de transplante (Figura 6).


Fig. 6 - Causas de óbito em diferentes períodos do pós-operatório em 92 transplantes cardíacos.

Nos primeiros 30 dias de pós-operatório houve um predomínio de mortes por infecção, causas neurológicas e rejeição.

Após o 30º dia até o 1º ano de pós-operatório houve predomínio de mortalidade por rejeição e infecção. Nos casos com mais de 1 ano de transplante, houve quatro mortes súbitas, quatro óbitos por septicemia e, 2 casos por rejeição, além de outras causas.

Os óbitos por sofrimento neurológico ocorreram todos no período hospitalar (130 dias). Dois foram por hipóxia e parada cardíaca em conseqüência: 1 caso por extubação traqueal acidental e outro por edema de glote após extubação. Ainda por causa neurológica houve mais dois óbitos: um por acidente vascular cerebral hemorrágico (iatrogenia por administração acidental de altas doses de catecolamina) e outro por embolia gasosa, por "ar" residual nas câmaras cardíacas (confirmação por necrópsia).

No geral, houve nove óbitos por rejeição, ocorrendo na maioria deles um fator agravante associado. A maioria desses óbitos, ou seja, sete (77,7%) ocorreu nos primeiros 6 meses pós-transplante (Quadro 1).



Os falecimentos por infecção foram num total de 12 casos e esta foi, no geral, a principal causa de morte (30,7% do total), sendo um por toxoplasmose (diagnosticado apenas na necrópsia) e um por citomegalovírus (CMV). As infecções bacterianas com um total de 10 casos (3 por Gran negativos confirmados), predominaram em número de mortes por infecção (83,3%).

Todas as mortes súbitas, ou sejam, 4 casos ocorreram após 2 anos de acompanhamento pós-transplantes, e não tiveram uma etiologia bem determinada.

A curva actuarial de sobrevida é mostrada no Gráfico 2. A sobrevida do receptor no 1º, 2º, 3º, 4º, 5º e 6º anos foi, respectivamente, 71,6%, 66,6%, 60,5%, 54,4%, 54,4% e 54,4%. Devido ao número reduzido de casos a partir do 7º ano e a um erro padrão muito grande, as demais porcentagens, nos anos subseqüentes, devem ser analisadas de maneira bastante crítica.

GRÁFICO 2
CURVA ACTURIAL DE SOBREVIDA DE 92 TRANSPLANTES CARDÍACOS, OPERADOS DE NOVEMBRO DE 1996 A MAIO DE 1997



Não houve perda de seguimento, sendo acompanhados 53 pacientes sobreviventes , todos em bom estado geral e todos em classe funcional I da NYHA (New York Heart Association).

Dentre os acompanhamentos mais antigos, merecem destaque 12 pacientes com mais de 5 anos de transplante, incluindo entre eles o 1º transplante realizado em nossa Instituição (10 anos e 6 meses), que vinha passando bem e continuava em seu emprego, trabalhando normalmente até o encerramento deste presente estudo.

Com relação ao ato operatório, a utilização da técnica de LOWER & SHUMWAY (3) em nossa experiência mostrou-se bastante eficiente, não havendo, em nossa casuística, qualquer problema digno de nota ou intercorrência maior. Esta técnica cirúrgica vem sendo utilizada pela grande maioria dos cirurgiões em todo o mundo e por nós há mais de 10 anos. Não vemos grandes razões para maiores modificações.

Recentemente, vêm sendo propostas modificações técnicas como o "transplante ortotópico total" (DREYFUS et al. (7), em 1991, além de outras mudanças da técnica original de Stanford, MENDONÇA et al. (8), em 1994). Acreditamos que há necessidade de mais investigações para demonstrar vantagens clínicas significantes em relação à técnica tradicional.

O tempo de isquemia (TI), considerando todos os casos, nos pareceu adequado, ficando bastante aquém do máximo tolerado, que seria de 4-5 horas (BOURGE et al. (9), em 1992). Talvez em função disso, a falência miocárdica no pós-operatório hospitalar não tenha sido um problema tão importante para nós, como o divulgado por alguns autores (FONGER et al. (10)).

Vale ressaltar, no entanto, que, por problemas de infra-estrutura, a maioria (83,7%) dos nossos transplantes foi realizada com doadores-receptores lado a lado, em salas contíguas. Essa tática permite menor tempo de isquemia e parece ser comum em nosso país.

STOLF (11), em 1994, num levantamento entre várias equipes, verificou que 75% dos casos foram feitos lado a lado.

Essa abordagem parece trazer mais segurança econômica e conforto às equipes cirúrgicas, porém, com a crescente carência de doadores, essa prática tende a mudar.

Por outro lado, na experiência internacional, a situação é inversa e, em vários Serviços, mais de 80% dos transplantes cardíacos são feitos com o órgão retirado à distância (HOSENPUD et al. (12), em 1995, e McGREGOR et al. (13), em 1984).

É oportuno lembrar a necessidade de atentar para as complicações causadas pelos imunossupressores no pós-operatório recente ou tardio. O fato de não termos nos defrontado na fase hospitalar com complicação renal grave talvez possa ser explicado pelo esquema de imunossupressão por nós adotado, que evitou o uso da ciclosporina nos primeiros dias de pós-operatório (SCHÜLER et al. (14) - 1987). No entanto, no pós-operatório tardio, a ciclosporina (CsA), por seus efeitos nefrotóxicos, provavelmente deve ter contribuído para a insuficiência renal crônica em 4 (6,1%) dos nossos pacientes, e para a hiperuricemia em 49 (75,4%) deles (MILLER et al. (15) - 1990, MULLER et al. (16) - 1993).

Os imunossupressores foram responsáveis por muitas complicações no pós-operatório tardio em nossa casuística, sendo raro o paciente que não apresentou. A hipertensão arterial sistêmica, a hiperuricemia e a hipercolesterolemia foram as principais complicações, sendo importantes fatores para a obrigatoriedade de acompanhamento no pós-operatório tardio.

Com relação às infecções no pós-operatório, elas parecem estar relacionadas também ao uso de medicação imunossupressora e sua incidência é variável de acordo com o critério utilizado no diagnóstico, oscilando de 31% até 90% nos vários Serviços (MILLER et al. (17), em 1994).

Em nossa série tivemos 92 episódios de infecção, predominando as infecções virais (45,6%) seguidas das bacterianas (38,0%) e por protozoários (16,3%), não se considerando os fungos que em nossa casuística abrangem sobretudo a candidíase oral de evolução muito benigna, havendo apenas 1 caso mais sério de esofagite estenosante, que necessitou dilatação.

Diferentemente de nossos achados, diversas publicações colocam as infecções bacterianas como as mais freqüentes (40% a 60%): PETRI (18) (1994), CAMARGO & VIP (19) (1995). Esta diferença talvez se deva ao fato de termos registrado freqüentes recidivas de infecção herpética (oral ou genital), que foram responsáveis por 76,2% das infecções virais.

As infecções bacterianas em nossa série foram as que determinaram maior mortalidade (10 casos) seguidas de toxoplasmose e citomegalovírus (CMV), com 1 caso cada. A infecção como um todo foi a maior causa de óbito (30,7%) dos nossos pacientes, coincidindo com cifras de inúmeras instituições que variam de 17% a 40% (MILLER et al. (17), 1994).

A infecção do sítio cirúrgico (ISC) ocorreu em 7 (7,6%) pacientes sendo seis superficiais e uma profunda (mediastinite). Nesses casos houve predominância de bactérias Gran negativas e com boa evolução, sem óbitos.

Na mediastinite, o agente infeccioso foi o S. aureus, e houve necessidade de reabertura esternal, desbridamento dos tecidos, e fechamento com irrigação contínua mediastinal com povidine e drenagem. Esse paciente ficou internado 38 dias e recebeu alta em boas condições.

Com referência à infecção do sítio cirúrgico, existem publicações diversas, relacionando condições pré-operatórias dos pacientes, antibioticoprofilaxia etc. O grupo de Pittsburgh relatou taxas de 8% para infecção esternal (TRENTO et al. (20), 1984), o Instituto do Coração em São Paulo (CAMARGO & UIP (19), 1995) referiram taxas de 10% para infecções superficiais e 5% para infecções profundas e MILLER et al. (17), (1994) divulgaram uma taxa geral de 3% para esse tipo de infecção.

Quanto aos 4 casos de toxoplasmose, houve um óbito, numa mulher com septicemia no 32º PO do transplante, sendo que o diagnóstico só foi feito após a necrópsia. Cabe lembrar que, nos transplantados, a toxoplasmose é uma doença de comprometimento difuso, de diagnóstico difícil e geralmente tardio, sendo a infecção primária (LUFT et al. (21), 1983).

A partir de fevereiro de 1993, com a aceitação de pacientes com moléstia de Chagas em nosso programa de transplante, tivemos 21 pacientes operados com esse diagnóstico, havendo reativação do T. cruzi em 7 (33,3%) casos no pós-operatório, todos tratados com allopurinol (600 a 900 mg/kg/dia por 60 dias), com sucesso.

Anteriormente, em estudo prospectivo, ALMEIDA (22) (1996), que pertence à nossa Equipe, já havia analisado nossos primeiros 15 pacientes chagásicos transplantados, comparados a 18 outros pacientes, submetidos a transplante cardíaco num mesmo período. Num acompanhamento de 3,5 a 24 meses, o autor demonstrou reativação do T. cruzi, em 3 (20%) casos chagásicos, e mesma evolução e sobrevida nos dois grupos (chagásicos e não chagásicos); mostrou, também, não haver diferença entre os dois grupos quanto a incidência de rejeição e infecção, nem quanto ao aparecimento de neoplasias.

No entanto, os resultados dos transplantes na miocardiopatia chagásica ainda vêm gerando controvérsias entre os grupos.

BOCCHI (23) (1993), do grupo do Instituto do Coração em São Paulo, analisou a evolução de 18 pacientes chagásicos submetidos a transplante no período de setembro de 1985 a abril de 1993, com tempo de acompanhamento variando de 4 a 96 meses, mostrou reativação do T. cruzi em 18 oportunidades, em 13 diferentes pacientes, além de elevada incidência de neoplasias diversas (6 casos). O tratamento instituído nas reativações foi com benzanidazol na dose de 10 mg/kg/dia por 60 dias.

Na análise da mortalidade, observamos que, no geral, em nossa casuística, ela foi maior no pós-operatório hospitalar, com 16 (17,3%) pacientes, com grande contribuição das causas neurológicas, como comentado.

No período de 31 dias a 1 ano, houve predomínio da mortalidade por rejeição e infecção.

Ainda no geral, a infecção foi a principal causa de morte (30,7%) dos óbitos, com predominância das bacterianas (83% dos óbitos por infecções).

A rejeição também foi causa importante de mortalidade, principalmente até o mês pós-transplante (77,7%), o que justifica a maior freqüência de biópsias endomiocárdicas para diagnóstico nos primeiros meses de pós-operatório e no pós-operatório superior a 1 ano houve prevalência de óbitos por infecção e morte súbita (4 casos de cada), mas, curiosamente, ainda ocorreram dois falecimentos por rejeição.

Se confrontarmos nossos dados com os do registro da Internacional Society for Heart and Lung Transplantation (ISHLT) - (HOSENPUD et al., 1995) (12), veremos que nesta última a rejeição e a infecção são importantes causas de óbito, prevalecendo, no entanto, o número de óbitos por falência cardíaca.

Em nossa casuística, não houve morte por falência cardíaca, como comentado anteriormente; no entanto, houve mortes por causas neurológicas, por razões seguramente contornáveis com o aumento da experiência.

No período intermediário de 31 dias a 1 ano de pós-operatório, os nossos dados coincidem com os da ISHLT na prevalência de rejeição e infecção como causa de morte.

No período tardio (mais de 1 ano), a ISHLT relata a doença coronariana e neoplasias como causas comuns de óbito, o que curiosamente não ocorreu em nossa série. A explicação para esse último fato é bastante controvertida.

É interessante observar que HOSENPUD et al. (5), (1997) chamam a atenção para o fato de a rejeição ser uma causa comum de óbito após 1 ano de transplante. Em nossa casuística tivemos duas mortes por essa causa, mostrando que se deve estar sempre atento para essa causa, mesmo em pacientes em pós-operatório tardio.

Os 4 casos de morte súbita no pós-operatório tardio não foram esclarecidos, podendo ser aventadas diversas hipóteses, como infarto "silencioso", rejeição com arritmias ou bloqueio etc.

Análise da curva actuarial deste trabalho mostrou para 1 e 5 anos uma sobrevivência de 71,6% e 54,4%, respectivamente.

STOLF (11), (1994), num levantamento consecutivo de 270 pacientes operados em vários Serviços no Brasil, relatou uma sobrevida de 64,7% e 47,0% em 1 e 5 anos, respectivamente.

Já a sobrevida no Grupo de Stanford (SARRIS et al. (24), 1994) também para 1 e 5 anos, foi de 82% e 61%, respectivamente.

Assim, guardadas as devidas proporções em relação aos Estados Unidos da América, os resultados alcançados pelo nosso Serviço podem oferecer aos pacientes de nosso país uma razoável expectativa de vida.

CONCLUSÕES

Com base na experiência acumulada em nossa Instituição, podemos concluir que:

A técnica operatória para transplante cardíaco ortotópico à maneira de LOWER & SHUMWAY (3), (1960), é bastante eficiente e pode ser realizada sem complicações importantes.

O transplante cardíaco com captação de órgãos à distância pode ser causa de prolongamento do tempo de anóxia do coração, porém é possível esse procedimento em nossa comunidade sem grande prejuízo da função cardíaca.

Os pacientes com miocardiopatia chagásica podem ser submetidos a transplante cardíaco com baixa morbimortalidade. A alta taxa de reativação do Trypanosoma cruzi pode ser combatida eficazmente com o allopurinol.

É possível a realização de transplante cardíaco em nossa comunidade (UNIFESP-EPM) com boa sobrevivência e taxa aceitável de complicações pós-operatórias, apesar de a estatística internacional apresentar dados diferentes, por vários motivos.

Na área dos transplantes cardíacos, acreditamos que é desejável expandir a casuística e que os resultados ainda poderão ser melhorados, com o passar do tempo, com o acúmulo de novas experiências e à custa de grande empenho.

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