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ARTIGO ORIGINAL

Palavras do Prof. Adib D. Jatene: ao meu mestre, com carinho

DOI: 10.1590/S0102-76381993000400002

(Publicado em "O Estado de São Paulo")

Fechou-se um ciclo da cardiologia brasileira com a morte do professor Zerbini, figura que marcou sua presença, nas Sociedades Brasileira e Internacional de Cardiologia, por uma atuação vigorosa, honesta, construída com tenacidade e muito trabalho.

Devo toda a minha formação cirúrgica a ele, com quem comecei a trabalhar, ainda estudante de Medicina, em 1951. Àquela época, iniciava-se a cirurgia intracardíaca no mundo, pela atuação dos cirurgiões que voltaram das frentes de batalha da 2º Grande Guerra e que haviam adquirido enorme experiência com os ferimentos de tórax em geral, e do coração em particular.

Cirurgião de tórax já consagrado, Zerbini lançou-se à cirurgia do coração com o espírito do pioneiro que enfrenta desafio armado de fé inquebrantável e de dedicação que chegava ao sacrifício pessoal.

Tendo permanecido 11 anos ao seu lado, testemunhei momentos de humildade que dignificam e dão perfil humano a quem é mais conhecido pela sua posição profissional, que exige determinação e firmeza de atitudes.

Lembro-me de operação, no início dos anos 50, para tratar um grande canal arterial com hipertensão pulmonar, que apresentara episódio de endocardite. A operação ainda hoje é grave e de risco. Zerbini esmerava-se para dissecar a estrutura quando, subitamente, ao tentar completar a liberação, houve ruptura do canal e profusa hemorragia, que punham em risco a vida do paciente. Assisti, então, já bastante apreensivo, à manobra de que só um experimentado cirugião do tórax seria capaz.

Resumindo e não entrando em detalhes técnicos, foi necessário sacrificar o pulmão esquerdo para poupar a vida do paciente. Controlada a hemorragia, eis que o paciente apresenta parada cardíaca. A esse tempo, conhecia-se pouco sobre recuperação desse tipo de complicação. Massagem e desfibrilação fizeram retornar os batimentos. O paciente foi salvo e vive ainda hoje.

Quando o busquei, em sua sala, para informar que o paciente já estava em seu leito, antes de o encontrar triunfante por ter conseguido controlar o acidente - nas circunstâncias e na época, fatal -, encontrei-o chorando por não ter podido preservar o pulmão. Não proclamava o êxito. Humildemente, chorava a perda do órgão.

Outro episódio que guardo com respeito se relaciona com sua postura do início da cirurgia com circulação extracorpórea.

O professor Hugo Felipozzi, que era seu assistente na Escola Paulista de Medicina, organizara, na Fundação Sabbado D'Ângelo, um valoroso grupo de profissionais e conseguiu, antes do professor Zerbini, operar, com sucesso, pacientes com a chamada cirurgia a céu aberto, usando o coração-pulmão artificial.

Assisti, em vários congressos, ao professor Zerbini na primeira fila, após apresentação do professor Felipozzi, pedir a palavra e declarar que, apesar de todo o esforço de sua equipe, ainda não tinha conseguido utilizar o método em pacientes, e por isso, ressaltava a contribuição alcançada pela equipe do Sabbado D'Ângelo, fazendo, em seguida, indagações sobre detalhes técnicos.

Estes episódios, que recordo, emocionado, mostram a dimensão humana desta extraordinária figura que desaparece fisicamente, mas se eterniza na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de com ele conviver.

Ele era respeitado, não apenas por seus colegas e discípulos, mas também pelo povo. Certa vez, voltávamos da Argentina e enfrentávamos longa fila no Aeroporto de Congonhas para visarmos os passaportes. Alguém o chamou para atendimento privilegiado. O comentário que ouvi, e recordo agora, foi: "Fizeram muito bem. Um homem destes não pode ficar na fila". Era a expressão maior do respeito por uma figura ímpar, que vem servindo de modelo a gerações de cirurgiões.

Sua imagem para os estudantes de Medicina é a de verdadeiro ídolo. Dez anos depois de aposentado da Faculdade de Medicina da USP, com 80 anos de idade, foi escolhido para patrono da turma de 1992.

Quando de sua aposentadoria, tive oportunidade de saudá-lo como "o discípulo que partiu". Disse-lhe, no fecho do meu discurso: "...Nenhum dos seus discípulos partiu. Estão todos aqui e agora, orgulhosos do seu mestre e da sua escola".

Este orgulho expressou-se na organização dos Encontros Anuais dos Discípulos do Professor Zerbini, aos quais todos compareciam. O deste ano, o décimo, realizou-se em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, 11 dias depois da sua morte.

No momento em que nos despedimos dele, estou certo de exprimir o sentimento de todos os seus discípulos, que admiraram a sua técnica, respeitaram o seu profissionalismo, assumiram o seu lema de que "nada resiste ao trabalho" e dedicaram a pessoa humana, imensamente grande na sua humildade, toda a amizade e todo o carinho.
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